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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Shingeki no Kyojin – Anime: os 5 episódios até agora







Muito tinha se especulado em relação à série animada de Shingeki no Kyojin desde que fora anunciada vários meses atrás e seus trailers tornaram-se febre na internet. A animação impressionava pela qualidade e, apesar das cenas escassas, a fidelidade à obra original já estava garantida. Eu, que já era um grande fã da série há dois anos desde que li o mangá, não podia estar mais empolgado. O hype era muito grande entre aqueles que leram o mangá e, aos poucos, também foi ficando grande entre os que não leram nem nunca haviam ouvido falar da obra. Mas será que a série conseguiu alcançar todos os objetivos que haviam sido prometidos? Valeu a pena esperar? Eu me considero um grande fã de SnK, e essa é a minha impressão sobre o animê até agora.


            Antes de falar de mim, entre a comunidade fanática por animês o desenho foi um estouro. Quem não conhecia a série antes virou fã quase instantaneamente (assim como havia ocorrido com o mangá antes). Os leitores do mangá também ficaram indiscutivelmente satisfeitos de um modo geral. O primeiro episódio teve uma repercussão tão absurda que na mesma semana não havia sequer um site sobre animês que não estivesse falando sobre Shingeki. Até agora os fóruns estão entupidos de discussões e debates e o numero de fãs aumentou significativamente. O Youtube explodiu com vídeos em homenagem à obra, AMVs e paródias da abertura. Sites como o DeviantArt se encheram de FanArts e fotos de cosplayers vestindo capas com o brasão da Scouting Legion e réplicas das espadas e do 3D Maneuver Gear usado na história.   





            Shingeki no Kyojin mal teve sua estreia no mundo das animações japonesas e é essa a impressão que ele deixou no público. E, é claro, como fã assumido que sou do mangá, devo dizer que esta foi a mesma impressão que caiu sobre mim. O que eles fizeram com o primeiro episódio foi refletido no resto dos episódios com competência absoluta. O roteiro, que é e sempre será a minha maior preocupação, ficou muito bem adaptado para o formato de série; a animação, que me deixou preocupado desde que assisti aquele filme horroroso do Berserk, é de qualidade e usa pouco CG, imitando os traços do autor com fidelidade quase absoluta; e a atmosfera, a essência do mangá, que para mim é o fator mais importante em uma adaptação, foi preservada o máximo em que isso é possível de se fazer em uma adaptação em animê sem deixar de incluir fatores básicos que compõem toda e qualquer série animada de respeito. É desse nível que eu tô falando.

            Mas antes de começar a explicar a fundo todos os pontos em que essa produção me agradou tanto, vou contar, mais uma vez, a história de SnK. O mangá acompanha três crianças, Eren Jaegger, Mikasa Ackerman e Armin Arlert, e se passa em um mundo antigo, bem mais do que o nosso, como se fosse uma Terra alternativa, mas com uma civilização humana bem mais rústica. Não chega a ser um mundo medieval, mas possui algumas características que o definiriam como tal, só que com uma tecnologia que chega a ser steampunk até certo nível. Na história desse mundo, no ano de 750 a humanidade foi quase que completamente exterminada por uma raça de gigantes (que são chamados de titãs) que surgiram de repente sem nenhuma explicação ou aviso prévio. Os sobreviventes desse ataque se juntaram em uma cidade enorme protegida por muralhas de 50 metros. Os titãs, medindo no máximo uns 15 metros, são incapazes de derrubá-la.





Desse jeito, a humanidade conseguiu sobreviver durante quase cem anos, até que, no ano 845, surge um titã ainda mais alto do que a muralha, abre um enorme buraco nela e some sem deixar vestígios. Os titãs normais passam pelo buraco e iniciam uma nova era de destruição para a raça humana. Cinco anos depois, em 850, vemos os três protagonistas já alistados no exército e bem mais velhos, cada um com um objetivo diferente. Armin pretende ser de alguma utilidade para a humanidade. Eren pretende exterminar todos os titãs, responsáveis pela morte de sua mãe, e explorar o mundo exterior. Mikasa quer proteger seu meio-irmão Eren, única família que lhe falta. E é aí que o titã colossal de 60 metros reaparece para abrir um novo buraco na muralha e começar tudo de novo. São basicamente estes acontecimentos que o animê narra até o quinto episódio.

            Pra começar, não seria nem um pouco fácil adaptar o roteiro do mangá para um formato em animação, pois o autor gosta de ir e voltar no tempo para mostrar acontecimentos passados dos personagens que terão algum reflexo no presente. E ele faz isso praticamente o tempo todo. Para lidar com isso, o diretor optou por fazer algo mais linear, seguindo a ordem cronológica dos flashbacks, e não a ordem completamente aleatória do mangá, cuja linearidade quase inexiste. Os leitores do mangá vão perceber alguns pequenos detalhes que foram cortados do enredo para deixar o roteiro mais enxuto, e eu admito que isso me incomoda, mas de uma maneira geral a adaptação segue o original com muito respeito e fidelidade. Eles chegaram até a colocar algumas ilustrações do mangá nos créditos de abertura, como se estivessem anunciando de que esta será uma adaptação fiel. Mesmo não estando perfeito, eu posso afirmar com total facilidade que, dentro de cada cena isolada, o roteiro do animê segue, sim, o do mangá com muita fidelidade, mesmo não sendo nada absurdamente idêntico. Portanto, se você interessou, leu e gostou do mangá, não se preocupe que eu não vi ninguém se decepcionar até agora. E se você nunca leu, vai gostar também, pois não se trata de uma história qualquer. É Shingeki no Kyojin.



            A animação é outro detalhe que não decepciona. Mesmo com aquele trailer bonito e bem feito, tive medo de que a sua qualidade fosse decair com o tempo, algo que, felizmente, não aconteceu até agora. E nem dá sinais de que vá acontecer algum dia. A movimentação dos personagens, as cenas de luta, os titãs se locomovendo, coisas explodindo e desmoronando, eu não poderia esperar menos de um animê baseado em Shingeki. Durante as minhas leituras do mangá, era difícil imaginar os personagens usando os complexos equipamentos de movimentação tridimensional. Bem, o animê acabou com essa preocupação. Não só os cabos do 3D Maneuver Gear são ágeis, o design do equipamento respeita a ideia original (apenas substituindo o galão de gás por dois estranhos discos com um tubo no meio, mas pelo que eu vi essa mudança foi ideia do próprio autor) e também possuem um efeito para a fumaça que é muito bem feito, sendo ora transparente, ora opaca.

O trabalho da Wit Studios é competente, mas mesmo assim não impediu a presença de algumas cenas estáticas que substituem cenas de ação muito trabalhosas em alguns momentos, o que é meio decepcionante, mas como a qualidade alcança um nível satisfatório nos momentos mais importantes, dá para perdoar. O temido CG, que costuma estragar os animês quase sempre, dando à produção um ar preguiçoso, também está presente, mas dessa vez ele ganha uma participação positiva. É usado muito raramente, ás vezes apenas para compor o cenário ou em pequenos detalhes e você quase não percebe que ele está lá. Para ter uma noção, a maioria dos titãs foi feita com a ajuda do efeito em CG, mas a animação é tão bem feita que disfarça isso perfeitamente. Acho que a minha única reclamação de verdade seria a mesma em muitos outros animês que foram fiéis aos seus mangás, mas que possuíam um visual muito escuro em algumas cenas, o que acaba matando um pouco a atmosfera e o impacto que o mangá queria transmitir, já que a animação apela para aquele visual clichê de luz crepuscular ou ambientes de pouca iluminação.



E aqueles que estavam preocupados com a censura de cenas fortes podem respirar calmos agora. Shingeki no Kyojin é muito mais violento e ousado do que qualquer shounen que eu já tenha visto. É claro, o animê não mostra tudo de maneira assim tão explícita quanto o mangá, o que é muito provavelmente um reflexo do tabu ridículo ainda existente em torno de qualquer obra de ficção que contenha sangue demais. Shingeki no Kyojin nem chega a ser considerado um dos animês mais violentos já feitos nem nada do tipo. O negoço é que ele age exatamente como os mangás mais maduros em relação à morte de seus personagens: com muito niilismo e frieza, quase como se fosse algo normal ou sem importância, o que pode chocar um público mais conservador que não assiste nem entende obras do estilo de SnK. Mas o que importa é que a violência está lá de qualquer jeito e a censura parece não ter mostrado nenhum interesse em esconder um pouco de sangue e membros sendo decepados, algo que deverá ser tão comum no animê quanto foi no mangá.

            Mas e a essência e a atmosfera da história, os fatores que considero de maior importância em adaptações? Foram preservados? Foram, mas só até certo ponto. Eu compreendo isso perfeitamente, pois Shingeki no Kyojin é uma obra diferente do comum, tão diferente que poderia gerar estranheza na maior parte do publico. Aqueles que leram o mangá se propuseram a fazê-lo por conta própria para conseguir aproveitar o grosso da história e tirar todas as características positivas que ela conseguir oferecer. Mas com o animê é diferente. Quem assiste não necessariamente estará disposto a passar pela extensa jornada emocionalmente pesada que define a essência do mangá e nem toda a sua linha narrativa original que foge do óbvio e de tudo aquilo que já foi incansavelmente repensado e repetido em outros animês. É por isso que foi importante adaptá-lo para algo que soa um pouco mais comum e pode ser mais facilmente digerido pela grande massa do publico, pois do contrário não teria atraído tanta gente.




            Então significa que mudaram completamente a essência do mangá e o transformaram em algo clichê? Não, longe disso. A essência foi preservada o bastante para que você não consiga separar as duas versões como coisas diferentes. É a mesma história, a mesma atmosfera e o mesmo conceito, e nisso eu acho que eles foram muito, mas muito competentes em captar. Mas como o animê não é impecável, algumas cenas deixaram a desejar nesse sentido. São as cenas mais leves e brilhantes, que se passam em momentos de descontração ou de desenvolvimento de personagens. Acho que nessas curtas partes eles deixaram o animê um pouco “alegrinho” demais. Mas é só a ação começar que tudo fica sombrio e obscuro. Nestas cenas, o clima é completamente perfeito. A animação fica mais violenta, mais brutal, e passa a ser um quadrinho a cores com movimento e trilha sonora. E são nestas partes que eu acho que eles mais acertaram, pois a essência do mangá fica concentrada todinha aí.

            Outro ponto que me agradou muito foi a caracterização dos personagens. Estão perfeitos. Exceto por algumas ressalvas, mas no final não é nada que altere o enredo em muita coisa. A Mikasa, por exemplo, ficou séria demais. No mangá ela faz o papel de garota fria e serena, mas no animê eles parecem ter levado isso ao pé da letra e a transformaram em um robô quase inexpressivo. Só porque ela mantem a calma com facilidade não significa que ela também não saiba mostrar algumas expressões.



            O design dos personagens ficou muito bom de um modo geral, mas não perfeito. Eu senti que Annie e Ymir ficaram um pouco diferentes fisicamente de suas versões originais. Reyner tem um olhar duro e carrancudo demais. Ele tem sobrancelhas arqueadas no mangá, é verdade, mas acontece que eles acabaram exagerando e o deixaram com cara de mau o tempo todo. Sasha também está fisicamente diferente, por alguma razão. Mas personagens como Connie, Jean e Crista ficaram perfeitos, sem tirar nem pôr.

            Já os protagonistas, bem, Mikasa não está tão bonita quanto era no mangá, mas dá pra ver que é ela. Armin ficou quase idêntico, assim como Eren. Eu só estranhei um pouco a cor verde-petróleo nos olhos dele. Fui ver as ilustrações coloridas do mangá depois e descobri que Eren na verdade tem olhos cinza. Talvez tenham mudado isso pela vontade de transformar a obra em algo mais colorido e vivo, sei lá, mas o fato é que por alguma razão eu sempre imaginei que os olhos de Eren fossem amarelos (provavelmente por influência de algumas fanarts). Acho que combinaria mais com ele, contribuindo ainda para o conceito do seu personagem, simbolizando o fogo nos seus olhos, o que eu também acho que combinaria muito com o clima do mangá.
            Depois de tudo isso, a conclusão a que posso chegar é que, se continuar nesse nível e seguir a história original com muita fidelidade e respeito, Shingeki no Kyojin tem um grande potencial para ser uma das melhores adaptações de mangás já feitas.

            Contudo, eu sou simplesmente incapaz de escrever um post sobre e não analisar os episódios um por um...

- Episódio 1

            O primeiro episódio começa exatamente como o primeiro capítulo e o segue com perfeição quase total. Na verdade, chega a pegar um pouco do segundo capítulo também. O que mais me impressionou foi a animação de alta qualidade e a fidelidade com que o roteiro seguiu o mangá. Algumas cenas chegaram a ter até os mesmos ângulos de visão que o mangá tinha. Vi algumas pessoas reclamando da dublagem de Eren, mas no final acabei não ficando muito incomodado com isso (provavelmente porque era em japonês). O que realmente me incomodou é que a Mikasa não é tão parecida com o seu equivalente do mangá quanto Eren ou Armin, mas no geral a caracterização dos personagens está mais que excelente.




            Outra coisa que me incomodou, apesar de ser problema menor, foi a iluminação crepuscular de pôr do sol que acompanha o episódio praticamente inteiro e acaba um pouco com o clima do mangá e torna o visual do animê mais clichê. Mas como já dava pra ver, pelo trailer, que nem todas as cenas seriam assim no decorrer da série, também não me preocupei muito. Além do mais, os momentos de tensão e horror quando os titãs aparecem ficaram perfeitos, especialmente na parte da primeira aparição do titã colossal. A atmosfera sombria, o clima de perdição e desespero, a sensação de pânico e desesperança dos humanos diante da ameaça titânica, está tudo lá. O único detalhe que achei esquisito foi a forma como o titã colossal surge: através de um raio. Isso não condiz com o mangá e ainda pode dar a ideia equivocada a algumas pessoas de que os titãs são criaturas que vieram do céu, como deuses ou algo do tipo. Como aqueles que leram o mangá sabem, não é bem assim...



- Episódio 2

            O segundo episódio foi mais um grande filler do que qualquer outra coisa. A maior parte das cenas foi inventada apenas para dar um pouco mais de miolo e fazer uma ligação com os acontecimentos do próximo. Mas como se trata de uma série, e não de um filme, e temos aí pelo menos 25 capítulos já confirmados só para a primeira temporada, não dá para se importar com cenas de encher linguiça, ainda mais quando estas mesmas cenas contribuem para o desenvolvimento dos personagens. Os caras tem tempo de sobra para adaptar uma boa quantidade de material, então não é como se eles tivessem de se preocupar com o relógio. Além do mais, mesmo com cenas inventadas, este episódio trouxe muitos conceitos, ideias e diálogos do mangá, como a parte que mostra o descaso da Military Police em relação às suas obrigações (o que foi uma prévia das corrupções que serão exploradas mais tarde) e os protagonistas discutindo sobre para qual divisão do exército iriam seguir, o que influenciará no destino de cada um. A única parte que me desagradou foi o flashback de Eren que mostra seu pai injetando um liquido estranho em seu braço, pois a cena ficou muito confusa.

Além disso tudo, também é aqui que aparecem pela primeira vez personagens de peso, como a Annie. Mas para mim, o episódio valeu mesmo foi pela cena em que o titã encouraçado destrói a muralha de Maria. Foi o único caso de que me recordo onde uma cena de animê muda quase completamente a do mangá e consegue ficar ainda melhor. Antes, eu estava muito temeroso com relação a uma determinada... Coisa... Que vai acontecer no futuro. Mas depois desta cena, perdi completamente o medo e coloquei toda a minha confiança na Wit Studios de que eles farão o grande acontecimento do sexto episódio ficar perfeito.



- Episódio 3
            O terceiro episódio pegou alguns acontecimentos de capítulos futuros, que ocorreriam em flashbacks, e os amontoaram em ordem cronológica. Este aqui basicamente se resume ao treinamento dos personagens para se alistarem ao exército e à apresentação de outros importantes que farão parte do círculo de protagonistas. Apesar da ordem das cenas não ser a mesma, posso afirmar que ficou, minimamente, igual. Temos o conflito entre Eren e Jean, um pouco de comic relief com Sasha e a parte em que Eren tenta desesperadamente ser aprovado nos testes com 3D Maneuver Gear, que seriam um passo certo em direção à Scouting Legion, que é a divisão para qual ele deseja entrar. A única coisa que ficou esquisita foi uma cena inexistente no mangá em que Reiner e Bertholdt levam Eren e Armin até um lago sem nenhum motivo aparente. Até agora estou tentando entender qual foi o motivo daquilo.



- Episódio 4




            É nesse episódio que o animê tem o seu verdadeiro início. Aqui tudo começa calmo e “alegrinho” demais, como no anterior. Cadê o clima depressivo e assustador do mangá? Porém, eu fiquei surpreendentemente feliz quando descobri que havia subestimado a Wit Studios, pois só a ação começar que todos os elementos essenciais do mangá vieram à tona. A cena em que o titã colossal reaparece para tentar derrubar a muralha em Trost é perfeita. A animação ficou sombria e o clima quase brutal. Com um final em aberto, este foi na verdade o verdadeiro começo de Shingeki no Kyojin.



- Episódio 5

            Aproveitando o final em aberto do episódio anterior, este aqui já começa no meio da ação. E continua assim até o final. Finalmente temos a chance de ver o verdadeiro potencial da animação, com cenas do equipamento de movimentação tridimensional sendo usado em ambientes bem abertos e nossos personagens lutando contra os titãs. Shingeki no Kyojin acaba de começar.

Pela primeira vez vemos o Corporal Rivaille, que não chega a dizer uma única palavra (típico dele) e fisicamente, para mim, ficou perfeito em todos os aspectos. Mas mais uma vez a grande sensação do episódio foi como ele termina – em aberto, marca registrada do mangá. O final guarda a primeira grande surpresa que vai começar a mudar tudo o que sabemos sobre a série até agora. Este evento inesperado desagradou muita gente, mas acalmem-se e confiem na sabedoria do mestre Isayama. É a partir do próximo episódio em que as surpresas vão ficando cada vez mais sinistras (e graças à cena do titã encouraçado, tenho certeza de que será perfeito). Portanto, esperem pelo próximo sábado e vejam a série sofrer uma turbinada esmagadora.







domingo, 31 de março de 2013

Segundo trailer do animê de Shingeki no Kyojin

 
    Era só uma questão de tempo até que o próximo trailer de SnK fosse lançado. O primeiro trailer que saiu é mais longo e menos confuso, mas esse novo, de apenas 30 segundos, mostra bem mais detalhes corridos, mais personagens e reforça as nossas esperanças de uma animação fiel ao mangá.
 
    Fiquei feliz de ter reconhecido cada cena do trailer (mesmo tendo repetido uma ou duas cenas do outro trailer), embora o vídeo não mostre muito, mas senti que algumas coisas ficaram meio estranhas. Tenho certeza de que essa adaptação não será tão boa quanto a história original. O que devemos fazer agora é esperar que agrade ao público em geral. O primeiro episódio estreia dia 7 de abril, então é uma questão de contar os dias e esperar sentado.
 
 
 
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Animê de Shingeki no Kyojin parece perfeito


 
            Shingeki no Kyojin é um mangá sobre gigantes que já foi resenhado por mim (leia a resenha AQUI) e possui uma das histórias mais surpreendentes que eu já vi. Eu mal tinha me recuperado do barulho que foi Half-Life 2 ganhar o prêmio de jogo da década na noite passada e o dia amanheceu com outra surpresa: SnK vai ganhar um animê! E não é um animê qualquer, é a animação mais linda e perfeita que o mundo já viu.
            O trailer foi como um soco no estômago, misturado com um balde de água fria na cabeça e um tapa na cara. Eu não conseguia imaginar como eles fariam os personagens se locomovendo com o equipamento de movimentação tridimensional (cabos com ganchos para se fixarem às muralhas, galões de gás que te impulsionam em pleno ar), mas graças ao trailer as minhas preocupações terminaram:
 

 
            Devido ao seu sucesso desde que foi lançado em 2009, estava claro de que o mangá iria ganhar uma versão animada mais cedo ou mais tarde. Eu só não esperava que fosse ser tão cedo. Que bom. Mas o que eu realmente não estava esperando era que seria uma animação tão bem feita, fluida, bonita e, acima de tudo, perfeitamente igual aos quadrinhos. Eles foram tão fiéis ao visual dos personagens que em certos momentos do trailer tive a sensação perfeita de estar vendo um mangá em movimento. Um exemplo de fidelidade e respeito à obra original que deveria ser seguido por toda e qualquer adaptação.
            Quer saber o lado ruim disso? O mangá conta com poucos capítulos ainda (são 39 capítulos compilados em 8 volumes, sendo que o capítulo 40 sai em dois dias), o que significa que, com um ritmo de um capítulo por mês, a série animada alcançará o mangá bem rápido e teremos os infames e odiados fillers para encher linguiça até que o mangá tenha capítulos o bastante para o animê poder continuar. Se fosse um filme não haveria esse problema, mas até agora tudo indica que será uma série de TV mesmo, o que é bom porque existem menos chances de eventos e personagens importantes serem retirados da história, mas por outro lado os fillers são quase inevitáveis. Também existe a possibilidade de eles darem um final alternativo e nada a ver ao animê, como aconteceu com Gantz e Claymore, o que seria péssimo.
            Independentemente ao animê, haverá um filme de Shingeki no Kyojin em live action, o que dá muito medo de pensar no que vai sair daí. Eu não vejo sentido em fazer um filme em live action quando uma série já está em produção, mas vamos rezar para as deusas Maria, Rose e Shina para que esse filme fique minimamente decente. Isso seria muito bom para a popularização do mangá. Shingeki no Kyojin é uma história da qual o mundo precisa saber.
 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Steins;Gate


    Não me pergunte o porquê do título ser assim. É desse jeito mesmo que se escreve, com um ponto e vírgula no meio. Eu cheguei a pesquisar pra saber o que significa e não encontrei nada. Mas não faz diferença. Esse é o título de um dos animês mais populares do ano passado e até agora o último que conseguiu ganhar o meu respeito. Steins;Gate é uma série animada baseada em uma visual novel japonesa de mesmo nome lançada pro Xbox 360. Apesar de a visual novel ser de 2009, o animê é de apenas dois anos depois, sendo apresentado de 6 de abril a 14 de setembro de 2011. Mas eu assisti a todos os 25 episódios sem saber de nada disso. O tema é viagens no tempo. A história é sensacional.

    Seguindo um dos roteiros mais excelentes q eu já vi, a narrativa se passa no ano de 2010, no bairro japonês Akihabara e acompanha o protagonista Rintaro Okabe, também chamado de Okarin, que se diz ser um cientista louco. Ele, junto de seus dois amigos Daru e Mayuri, descobre meio que por acidente um jeito de enviar mensagens de texto para o passado utilizando um micro-ondas e um celular. Isso, aliado ao fato de Okabe ter encontrado o corpo esfaqueado de sua colega Kurisu e no dia seguinte ela estar viva e não se lembrar de nada, e à aparição de um enorme satélite no terraço de um prédio, dá inicio a uma das histórias mais geniais dos animês de todos os tempos.

    Okabe é do tipo excêntrico e gosta de fazer piadas o tempo todo. Ele anda por aí sempre vestindo um jaleco branco e frequentemente fala sozinho no celular em uma tentativa de enganar os outros, mas ninguém nunca acredita. Ele vive em um laboratório improvisado em cima da loja do Sr. Braun, de quem alugou o apartamento para montar o laboratório. Com o passar do tempo, vai incluindo membros do laboratório até chegar a 8 membros, conforme o número de personagens vai aumentando. Com a descoberta daquilo que eles chamam de “d-mail” (ou seja, das mensagens que podem ser enviadas ao passado) ele e seus amigos começam a fazer diversas experiências para testar essa nova “máquina do tempo”. Além disso, eles ainda conseguem um meio de fazer um salto no tempo e voltar dois dias no passado para impedir que certos eventos aconteçam. Aparentemente, Okabe é o único capaz de se lembrar de todas as linhas do tempo pelas quais ele passou depois de realizar uma viagem no tempo, uma vez que todas as pessoas se esquecem dessas viagens e agem como se nada tivesse acontecido.

    Ele é bastante neurótico. Acredita que, por causa de suas pesquisas arriscadas, está sendo o tempo todo perseguido e vigiado por uma organização chamada SERN e que um suposto viajante do tempo chamado John Titor estaria dizendo a verdade após afirmar por toda a internet que ele veio do ano 2036 e que pretende evitar uma Terceira Guerra Mundial no futuro. No começo todos veem Okabe como louco, mas depois todas as suas crenças e predições acabam por se tornar realidade. Em uma conversa com o misterioso John Titor, este lhe revela que Okabe pode ter uma espécie de poder que lhe permite se lembrar de tudo, não importa quantas vezes ele mude as linhas de mundo. Porém, a origem de tal poder nunca é explicada. O suposto John Titor também pede para que Okabe se torne o seu Messias, já que ele acredita que Okabe é o único com a chave para derrotar a SERN e impedir uma guerra no futuro.

    Com o tempo, as experiências com o d-mail e os saltos no tempo começam a se tornar coisas mais pessoais e, por isso, também mais perigosas. Os membros do laboratório passam a usar o d-mail para resolver problemas pessoais no passado, mesmo que eles não consigam se lembrar de que algo mudou como Okabe consegue. O animê faz várias referências óbvias ao filme Efeito Borboleta, que também é muito bom, onde cada mudança no passado altera completa e radicalmente os eventos do presente. Com isso, Okabe e seus colegas acabam criando várias linhas de mundo e universos paralelos, mesmo que sem querer, o que torna a história muito mais complexa e intensa.

    Apesar de seguir o gênero de ficção científica e suspense, Steins;Gate possui muitos momentos cômicos e pode ser descrito como uma comédia leve e sem pretensões. Os personagens são muito carismáticos e bem trabalhados e cada um deles tem seu modo único de ser. O próprio Okabe é completamente atrapalhado e faz piadas a todo o momento. Seu amigo Daru, um hacker habilidoso, se diz o guerreiro da perversão, e sua colega Kurisu, a quem Okabe chama de Cristina (o que ela odeia), sempre acusa os dois de serem extremamente tarados e pervertidos. O estressado Sr. Braun também tem seus momentos engraçados, como quando se irrita pelas experiências barulhentas que Okabe faz em seu laboratório, o que atrapalha os negócios do dono da loja.
"It's so cooooooooooool!"

    Eu acho que o que faz de Steins;Gate uma série realmente interessante é que vários de seus elementos são baseados em fatos reais. Realmente existiu, na internet, uma pessoa sob o pseudônimo de John Titor que se dizia um viajante do tempo que viera do ano de 2036 e que buscava um meio de impedir uma Guerra Mundial causada pela empresa CERN. John Titor planejava viajar para o ano de 1975 para conseguir um computador IBM 5100, que por algum motivo acredita que pode ajudá-lo em sua missão, mas parou no ano de 2000 por motivos pessoais e para encontrar sua família. O mais intrigante é que muitas das previsões feitas pelo misterioso John Titor se tornaram realidade, o que contribuiu para a sua credibilidade.

    No animê fica clara a tentativa de dar uma explicação ao fenômeno de John Titor e suas supostas viagens no tempo. Sua identidade e verdadeiras motivações são reveladas ao espectador, mas é claro que é tudo suposição. Na história, John Titor é mesmo um viajante do tempo que para no ano de 2010 para encontrar seu pai e reaver o computador IBM 5100 e diz que, no ano de 2036, a empresa SERN conseguiu um meio de viajar no tempo utilizando o acelerador de partículas LHC e criou uma guerra entre as nações, pois quem controla o tempo controla tudo. A pessoa com o pseudônimo de John Titor, então, foi enviada de volta para o passado através da máquina do tempo construída pelo seu pai em uma missão para atrapalhar os planos da SERN, mas obviamente a empresa tentará impedir que isso aconteça.

    A animação e trilha sonora são impecáveis. Os temas de abertura e encerramento são simplesmente perfeitos e o modo como eles são alterados conforme a série chega ao seu fim marca um dos pontos altos de sua qualidade técnica. Apesar do excesso de momentos cômicos, as piadas nunca chegam a ficar exageradamente bobas e são todas hilárias. Tudo está na medida certa. Em alguns momentos pode ser que você não entenda o que está se passando devido à complexidade dos raciocínios, mas isso não é nada que atrapalhe o animê ou que o faça decair em qualidade. E não importa se o modo como as viagens no tempo são feitas faz sentido ou não. O animê faz isso de uma maneira tão convincente que você vai acabar engolindo.

    Se você é do tipo que precisa de uma animação de primeira categoria, munida com um roteiro cheio de surpresas e reviravoltas, Steins;Gate é a salvação. Foi considerado o melhor animê de 2011 e é provavelmente o melhor de seu gênero. Em momento algum sua qualidade cai ou o ritmo da série fica lento ou rápido demais. Todos os episódios são igualmente perfeitos e eu o considero um animê nota 10 de 10. E o melhor é que você não vai ficar com sede de episódios depois que a série acabar. O final é 100% satisfatório e não deixa nada a desejar, entregando ao espectador todas as explicações exigidas. Assista agora a série animada mais conceituada do ano passado – são apenas 25 episódios e não há como se arrepender. Ou simplesmente pegue seu micro-ondas, volte no tempo, altere o passado e finja que nada aconteceu.



quarta-feira, 16 de março de 2011

Berserk - Parte 1


    Se Death Note é o melhor mangá que já li então Berserk é o segundo melhor. Não quero ficar comparando mangás (mesmo que esses dois tenham MUITO a ser comparados), mas o critério que utilizo para construir meu ranking são compará-los com outros mangás que já li. E, por algum motivo, os primeiros parecem ser sempre os melhores. Talvez porque a ordem em que você os lê faça toda a diferença. Então se eu tivesse lido Berserk primeiro, eu provavelmente o acharia melhor ou o preferiria mais do que Death Note. Aliás, pra mim, os dois são praticamente do mesmo nível em questão de qualidade, só que Death Note é um pouquinho melhor.
    Mas vamos deixar esse mangá de lado e nos concentrar no foco desta resenha. Berserk definitivamente é o melhor mangá do gênero e eu acho que nunca lerei outro mangá que seja tão bom quanto ele ou que se iguale em níveis de qualidade. Com certeza é a melhor história já criada de todos os tempos. Criativa, envolvente, original, inovadora, interessante, fantástica, surpreendente e todos esses adjetivos positivos que se encaixam em narrativas. Primeiro de tudo, devo dizer que as cenas de luta e ação são estupendas. Não há nada mais impressionante do que uma batalha sangrenta saída deste mangá. Sim, a primeira coisa que atrai os leitores de Berserk é a violência. E põe violência nisso. Se você está louco para ver as mais impressionantes e alucinantes cenas de lutas violentas e sanguinolentas jamais vistas em um mangá, então este aqui é um prato cheio para você.
    Mas violência não é tudo. Este mangá é capaz de agradar o outro lado também, pois contêm cenas mais profundas, um enredo incrivelmente rico e diversas analogias e críticas à maneira do ser humano de viver. Berserk consegue tocar no ponto certo, no âmago daquilo que seria a alma da humanidade desde a época medieval (que é quando se passa o mangá) até os dias de hoje. E ele o faz com tamanha perfeição e maestria que você sentirá que o foco mudou das lutas para discussões humanistas. Então é um mangá para ser lido sem preconceitos, já que não se trata de violência gratuita, ao contrário do que muitos acreditam.
    O melhor de tudo é que as cenas de adrenalina, além de excelentes, não são cuspidas na nossa cara de qualquer jeito, como muito lixo que se vê por aí. Toda luta tem uma boa razão para acontecer. Tudo faz sentido, por mais caótico e surreal que possa parecer. É um mangá para te deixar entorpecido, maravilhado e empolgado, além de te fazer pensar mais sobre a raça da qual você faz parte. Conseguir juntar boas cenas de ação com um enredo interessante, uma história fantástica, críticas à sociedade humana, assuntos difíceis de serem discutidos e ainda por cima um traço de qualidade impecável é algo alcançado por poucos.
    Junte isso a um nível cultural absurdo e inúmeras referências extremamente fiéis à época em questão e você terá Berserk. Mas vá se preparando, pois o roteiro é forte e algumas cenas podem ser perturbadoras para pessoas de nervos e estômago fracos. Essa é a explicação para o fato de ser um mangá tão pouco conhecido em relação a outros mangás inferiores: Berserk é um mangá para poucos. Mas merece uma medalha de honra por ter conseguido um nível de detalhamento tão impressionante em questão de traços, roteiro, narrativa e em todo o resto.

    Outro fator que o faz especial é que é um mangá que já está sendo escrito a mais de vinte anos, o que faz com que ler os primeiros capítulos seja uma viagem no tempo. E ainda não acabou. Continua sendo escrito até hoje, sem uma noção exata de quando terminará e, o que é mais incrível, manteve o mesmo nível de qualidade durante esse tempo todo.
    Como o preconceito deve ser descartado enquanto se lê Berserk, não se importe se de início você achar o mangá com um tom um tanto clichê. Com um começo que já é interessante por si só, Berserk vai melhorando gradativamente à medida que o autor aperfeiçoa suas habilidades como mangaká, o que faz com que os dois evoluam juntos. Roteiro, traços, personagens, tudo é aperfeiçoado com o tempo até tomar um rumo completamente absurdo que levará até o desfecho mais esperado (ou inesperado) de todos os tempos.
    Tudo começa com o protagonista, Gatts (pronuncia-se “Gatsu”) chegando a uma cidade que está sendo controlada por um demônio. Gatts é um sujeito grande, mal encarado, não possui o olho direito, tem uma prótese mecânica com um canhão embutido no lugar do braço esquerdo e uma espécie de besta automática que pode ser acoplada a esse braço, sem falar de uma espada tamanho família que carrega nas costas, uma arma tão grande que só um indivíduo de força espantosa poderia ser capaz de manejá-la.
    Gatts possui a alcunha de Espadachim Negro, graças à capa preta que gosta de usar para se camuflar à noite. Ele também tem uma marca estranha na nuca da qual chama de estigma do sacrifício, que atrai seres do mundo etéreo, como espíritos e fantasmas, que tentam se apoderar de seu corpo, e começa a doer e a sangrar quando está na presença de algum demônio. Logo é um fardo terrível, apesar de ser útil para detectar seus inimigos. Ele é um caçador de demônios e seu objetivo é exterminar todos eles da face da terra, embora suas motivações permaneçam ocultas nesta primeira parte do mangá.
    Apesar da aparência de vilão, Gatts é o grande herói (ou anti-herói, chame como preferir) desta história. Com ele, nós já podemos reparar como os sentimentos humanos são retratados no mangá e analisados de forma profunda, vistos de todos os pontos de vista possíveis. Embora possua todas as características de homem bruto e truculento, nós podemos ver em seu rosto, marcado por cicatrizes e ferimentos, todo o sofrimento pelo qual ele já passou. Só então a postura violenta de Gatts torna-se compreensível.
    Gatts é um personagem que sofre e sofreu desde sempre. E foi por causa desde sofrimento que ele se tornou o que é no presente. Por outro lado, se não fosse por isso, em um mundo cruel como o de Berserk, ele já estaria morto. Mas há outro fator nesta fórmula, um fator que ninguém sabe ao certo de onde veio e que é o principal responsável por Gatts ser tão especial em relação aos outros. Esse fator é o espírito berserker, um espírito que floresceu no peito do protagonista em sua infância e que está se tornando cada vez mais forte, à medida que se apodera dele.
    Na mitologia nórdica (principal mitologia inspiradora do universo de Berserk) os berserkers eram guerreiros vikings que, durante as batalhas, atingiam tamanho nível de fúria que se tornavam incontroláveis e invencíveis, anulando o sentimento da dor e perdendo a noção de amigos e inimigos. E é isso o que acontece com o protagonista algumas vezes (apesar de não ter muitos amigos).
    Logo no primeiro capítulo, vemos Gatts salvando, acidentalmente, um elfo chamado Puck. Como agradecimento por ter salvado sua vida, o elfo começa a seguir o espadachim no intuito de ajudá-lo, mas acaba atrapalhando-o com sua personalidade extrovertida, o que deixa Gatts extremamente aborrecido. O elfo serve como uma balança no mangá para quebrar o clima de tensão. Enquanto Gatts representa o lado mais pesado, Puck simboliza o lado mais leve. E seu lado cômico nunca fará com que o mangá perca seu clima sério e naturalmente pesado. Além disso, os elfos possuem poder de cura, o que será bem útil para Gatts no futuro, e empatia, o que o torna capaz de sentir os sentimentos daqueles que estão à sua volta.
    Então Puck, uma criatura tão frágil e inocente, começará a entrar em contato com coisas que ele não compreende após seguir o caminho de Gatts, cercado de crueldade e frieza. Por isso, Puck é um contraste na série, quase como um indivíduo que não era para estar lá, um ser puro no meio de tanto caos e violência.
    É interessante ressaltar que Berserk se passa no período medieval da história humana, exatamente na época da Santa Inquisição. Sendo um mangá com teor cultural e extremamente crítico com questões do ser humano, junte isto ao personagem principal, dotado de uma personalidade irreverente, e teremos as críticas mais fabulosas e engenhosas que um mangá poderia ter.
    Outro fator que caracteriza o medievalismo é o próprio visual criado pelo autor, imitando ilustrações antigas com um estilo de sombreamento feito com linhas paralelas, típico da Idade Média. Mesmo com a evolução visual do mangá, este estilo o acompanha até hoje e assim será até o final. Ou, pelo menos, é o que os fãs esperam.
    Logo após este início, Gatts arranja problemas com os soldados do castelo da cidade que, ao invés de protegerem os cidadãos, estavam se aproveitando deles e fazendo o que bem entendiam. Gatts é capturado e levado até o castelo de Koka, no centro da cidade, aonde é torturado antes de ter uma conversa cara a cara com o senhor feudal, que estava sendo manipulado pelo demônio. O senhor feudal era um senhor de idade com sulcos fundos no rosto e olhos arregalados de medo. Ele condena Gatts pela ira do demônio responsável pelo controle da cidade e diz que, por causa das atitudes do Espadachim Negro, o caos seria estabelecido naquela cidade. Gatts ri e pergunta se ele não está confundindo a cidade com ele mesmo, deixando o senhor feudal sem resposta, desconcertado. Esse tipo de irreverência traz a Berserk um estilo único de ser. Mais tarde, a Igreja Católica será ferrenhamente criticada, no terceiro arco do mangá, cujo assunto principal é a Inquisição.

    Após ser torturado, o espadachim é trancado em uma masmorra suja, onde recebe a visita de um misterioso ser que o assombra em seus sonhos. Este ser misterioso se parece com um feto deformado que é atraído pelo estigma. Por algum motivo, Gatts parece sentir mais medo dele do que de qualquer outra criatura sobrenatural. Dentre as primeiras criaturas sobrenaturais que aparecem no primeiro arco, podemos citar os íncubos, seres que se alimentam dos pesadelos das pessoas. Íncubos são a principal ligação entre Gatts e o feto deformado.
    Mais tarde, somos apresentados a um precioso objeto que será importante para o entendimento da história. Trata-se do Behelit, uma espécie de ovo vermelho com um rosto desfigurado esculpido em sua superfície. Os leigos o tratam como um artefato maligno e têm medo dele, que, de certa forma, está vivo, mas Gatts se mostra grande entendedor do assunto e revela que o Behelit não é capaz de fazer mal. Ele é uma chave para outra dimensão. Um lugar onde vivem cinco anjos (ou demônios disfarçados). Esses anjos são a Mão de Deus.
    Nos capítulos finais do primeiro arco, enquanto Gatts lutava com um demônio poderosíssimo, ele deixa cair o Behelit que estava carregando. Depois de derrotar o demônio, este utiliza o Behelit para invocar a Mão de Deus e virar o jogo. O Behelit abre um portal que suga todos os que estão à volta para uma dimensão alternativa. Pouco tempo depois, os cinco membros da Mão de Deus aparecem, parecendo-se mais com demônios do que com qualquer outra coisa. Tratam-se de reis demônios (comumente confundidos com anjos por aqueles que os invocam) e são os seres mais fortes e poderosos em Berserk. Seu objetivo principal é aplicar a vontade de Deus na terra. Os nomes dos reis demônios são Ubik, Conrad, Slan, Void (que aparenta ser o líder) e Femto, que Gatts chama de Griffith. O Espadachim parece nutrir de um ódio profundo por Femto. Durante a cerimônia do sacrifício (como é chamada a invocação), Gatts tenta se aproximar de Femto ou Griffith para abatê-lo, mas fracassa miseravelmente. O Espadachim Negro, mesmo sendo um homem com habilidades sobre humanas, capaz de derrotar demônios muito maiores e mais fortes do que ele mesmo não consegue nem tocar um dedo em uma entidade como Femto. Até mesmo a presença dessas entidades é capaz de abalar Gatts, já que eles influenciam na dor causada pelo estigma.


    Durante esta cerimônia, é mostrado como os apóstolos (que são os demônios deste mangá) nascem. Eles, na verdade, são seres humanos normais, ou não, que ativaram um Behelit e invocaram a Mão de Deus. Para ativar um Behelit, é preciso fazê-lo entrar em contato com seu próprio sangue misturado com algum desejo humano muito profundo, como a vingança, a paixão ou simplesmente a vontade de viver. Em seguida você precisará sacrificar uma parte do seu coração (daí o nome da cerimônia). O sacrifício será marcado com o estigma capaz de atrair demônios e outros seres fantásticos. Mas há outro fator nesta jogada. O destino, que é quase como um personagem secundário presente a todo o momento, é quem rege o mundo de Berserk. Então, para se tornar um apóstolo, você precisa estar predestinado para tal.
    Tudo isso se torna muito confuso ao leitor, pois ainda não nos é revelado como o protagonista adquiriu o estigma. Mas tudo será explicado no segundo arco, que é consideravelmente maior que o primeiro, sendo um dos maiores, senão o maior de todos. São dez volumes contra os três do arco anterior. E não é pra menos, pois ele vai contar sobre a vida do Espadachim Negro, desde seu nascimento até o momento que se encaixa no começo da saga. Ou seja, o segundo arco não passa de um flashback gigante, se passando antes do primeiro.
    Ele começa com a infância de Gatts, que já era muito sofrida. O futuro espadachim comeu o pão que o diabo amassou quase que literalmente. Começando por seu próprio nascimento, que foi algo horrível, quando um bando de mercenários estava passando por uma árvore cheia de pessoas enforcadas e uma das mulheres do bando, traumatizada por ter perdido o bebê, salva um recém nascido quase morto debaixo do corpo de sua mãe enforcada. Shizu, a mulher que salvou o bebê, dá o nome da criança de Gatts.
    Três anos depois, Shizu acaba morrendo vítima de uma doença rara e contagiosa, o primeiro trauma de Gatts, que passa para os cuidados do líder do bando, Gambino, um homem frio e cruel. Gatts cresceu com a discriminação dos outros membros do bando por ser considerado um mau agouro. Embora Gambino não acredite nesse tipo de coisa, ele menospreza o garoto e o trata como lixo, mandando-o para a guerra desde muito cedo, esperando que ele morresse logo. Assim, Gatts acaba tornando-se um soldado aos seis anos de idade, ajudando seu bando durante as batalhas. O único problema é que não existiam armas para crianças, o que obrigava o moleque a usar espadas normais para adultos, dando início à sua mania de usar espadas com lâminas grandes de mais para ele.
    Aos nove anos, acontece o segundo grande trauma na vida de Gatts, quando ele é estuprado por um amigo do pai adotivo. Mas o causador do trauma não foi o estupro em si, mas sim saber que foi o próprio Gambino que o vendeu para seu amigo, Donavan, por duas moedas de cobre. Gatts descobre isso antes de matar e se vingar de Donavan, após armar uma emboscada para ele enquanto o soldado perseguia dois inimigos que fugiram para a floresta durante uma batalha.
    Os principais temas abordados neste arco são temas polêmicos, como estupro, pedofilia e incesto e é importante ressaltar a naturalidade com que esses assuntos são mostrados no mangá, como se fossem coisas normais. Cenas fortes como essas nunca serão tratadas como algo para chocar. Elas já são chocantes por si só e não precisam de uma ênfase. Desse jeito podemos ver o outro lado do ser humano de forma nua e crua. Esse tipo de visão sobre a humanidade, seus podres e suas ambições, começará a ser cada vez mais discutido daqui pra frente.
    Depois de mais algum tempo, Gambino perde a perna durante um período ruim para o bando, em que eles estão perdendo sucessivas batalhas e está faltando dinheiro. Gambino acaba por acreditar no que seus colegas alegavam sobre Gatts e resolve matá-lo para acabar com o sofrimento do bando (culpando-o inclusive pela morte de Shizu). Quando Gambino entra na tenda de Gatts, este descobre suas intenções e acaba meio que por instinto ou reflexo matando o próprio pai adotivo, o que o deixa extremamente abalado.
    Gatts foge com medo dos outros integrantes do bando matá-lo por ter assassinado seu líder e assim começa uma nova fase em sua vida, passando a viver como mercenário solitário e ganhando a vida matando guerreiros mais fortes para os nobres.
    As incríveis habilidades de um garoto de doze anos nas batalhas acabam por chamar a atenção de um bando famoso, conhecido como Bando do Falcão. Seu líder, Griffith, conhecido pela alcunha de Falcão Branco, fica obcecado com Gatts e tenta obrigá-lo a entrar pro time, o que obviamente Gatts recusa. Então Griffith faz um acordo aonde os dois lutariam um mano a mano apostando a entrada de Gatts no bando caso ele perdesse. Gatts subestima o Falcão Branco, mas Griffith mostra-se um exímio espadachim e o derrota na frente de todos. A essa altura já dá para ligar os fatos e entender boa parte do que aconteceu no primeiro arco. Agora falta entender por que. Um detalhe importante é que Griffith carrega um Behelit vermelho (o Behelit do imperador) pendurado no pescoço que ele diz ter ganhado de presente de um cigano há muito tempo atrás. O líder dos Falcões acredita que o objeto lhe trás sorte.
    A derrota para Griffith deixa Gatts muito aborrecido, mas isto acaba se tornando algo bom para ele. Ao entrar no bando, ele acaba por fazer muitos amigos que faziam parte do círculo de amizades principal do líder. Todos eles têm personalidades diferentes e muito bem trabalhadas. É nesse ponto em que o autor nos mostra como Berserk possui personagens bem caracterizados. Aparentemente, cada membro do bando, possui um sonho, uma ambição diferente, e todos estão seguindo seu carismático líder para realizar essas ambições.

    Griffith parece ser o maior sonhador e, ao mesmo tempo, o mais forte de espírito, o que o tornou capaz de ganhar a confiança de outros mercenários e montar seu bando, assim como seu carisma e, é claro, senso de estratégia. Ele é um gênio estrategista e suas estratégias brilhantes são as principais responsáveis pelo fato do Bando do Falcão nunca ter perdido uma batalha sequer.


    Falando em grandes batalhas, este será o foco deste arco, ao invés de criaturas fantásticas, que estão em bem menor número. O Bando do Falcão está participando de uma guerra épica entre os reinos de Midland e Tudor (simbolizando a França e a Inglaterra, respectivamente), guerra essa que já está durando um século, sendo conhecida como a guerra dos cem anos. O bando de Griffith está lutando ao lado de Midland e suas vitórias espetaculares o estão deixando mais próximo da fama e da nobreza. O único problema é que isso trás a desconfiança e a conspiração de diversos nobres que pretendem atrapalhar os planos de Griffith para beneficiar os seus próprios. Obviamente Griffith não se deixará intimidar por nenhum deles e usará de sua inteligência e perspicácia para driblar as armadilhas e golpes dos nobres.

   Em criaturas fantásticas podemos citar apenas Nosferatu Zodd, também conhecido como O Imortal, que foi o primeiro demônio que Gatts enfrentou, ganhando a ajuda de Griffith na batalha, o que não foi o suficiente para derrotar o apóstolo. Nosferatu é um guerreiro praticamente invencível, famoso por suas aparições misteriosas em certas guerras, apenas para sumir e reaparecer intacto anos depois.
    Antes de ir embora após sua luta com Gatts e Griffith, Zodd vê o Behelit do Falcão e faz uma profecia assustadora para Gatts, onde Griffith seria o responsável por sua morte, uma morte da qual ele não poderia escapar.

    Existe também o Skull Knight, nêmeses de Nosferatu e a personagem mais enigmática de Berserk. É um cavaleiro cuja verdadeira identidade ninguém conhece, que anda por aí vestindo uma armadura de esqueleto e demonstra ser o único até agora com capacidade para enfrentar de igual para igual o demônio Nosferatu Zodd. Em sua primeira aparição, Skull Knight também faz uma profecia para Gatts, na qual ele participaria de um grande desastre e sobreviveria para contar a história, o que deixa o espadachim extremamente confuso. Especula-se que a verdadeira personalidade por trás do Cavaleiro Caveira seja o rei Gaiseric, rei que viveu há muitos séculos e que se tornou lendário por usar um elmo em forma de uma caveira, assim como o que o Skull Knight usa.

    É nessa parte do mangá que temos a primeira revolução no traço do autor. O contorno dos personagens agora está mais limpo, tornando o mangá mais bonito visualmente, especialmente na fase que mais tem a ver com guerras. As batalhas ilustradas por Kentarou Miura são um colírio para os olhos. Serão freqüentes as vezes em que você irá se deparar com cenas de batalhas inesquecíveis ocupando paginas inteiras, ou até mesmo mais de uma página ( no caso das páginas duplas) incrivelmente detalhadas, mostrando centenas de milhares de soldados espetando uns aos outros com suas lanças, cavaleiros guerreando sobre os imensos campos, barricadas e canhões montados pelos exércitos para deter os inimigos e guerreiros segurando a bandeira de seu país. Tudo é muito bem feito, bonito e radiante. E a riqueza dos detalhes te deixará de queixo caído.




    Vale ressaltar uma das novas personagens, Caska, única mulher no Bando do Falcão e que tem a patente mais alta depois do Falcão Branco. Embora fique óbvio que ela se tornará o grande amor do protagonista futuramente, seu relacionamento inicial com Gatts beira ao desastre. Os dois vivem discutindo, já que Caska é, assim como Griffith, superior de Gatts e vive reprimindo o espadachim, que recebeu o cargo de líder da tropa de assalto, por suas atitudes irresponsáveis em campo de batalha, mesmo que ele sempre saia vitorioso. Gatts não aceita este tipo de tratamento, o que resulta em freqüentes discussões entre os dois que sempre são interrompidas pelo tolerante Griffith.
    Outro romance que acontece paralelamente a este é o de Griffith com a princesa Charlotte, filha do rei de Midland. Embora ela se apaixone por Griffith à primeira vista, o líder dos falcões pretende casar-se com ela para subir ao trono e, assim, ficar mais perto de seu maior sonho.
    Uma cena interessante é quando Caska passa mal durante uma das batalhas por estar menstruada e acaba caindo de um abismo, sendo salva por Gatts. Porém, os dois acabam perdidos, tendo que se esconder das tropas inimigas durante um dia e uma noite. Nesse meio tempo, eles acabam tendo uma conversa, onde Caska explica a Gatts como se tornou a guerreira mais habilidosa ao entrar para o Bando do Falcão e como Griffith a salvou durante a infância.
    Entre outros papos, ela lhe conta certa vez, antes de Gatts entrar para o bando, que Griffith lutou pelos interesses de um rei que, segundo ela, possuía uma característica repugnante de aprisionar crianças em seu castelo como escravas e molestá-las de forma explícita. Vemos novamente a natureza obscura do ser humano mostrada de forma nua e crua com outro assunto polêmico, nesse caso a pedofilia.
    Mais interessante é saber que o próprio Griffith se ofereceu depois para passar uma noite com o rei. A princípio, Caska não acreditou no que estava vendo, mas após uma conversa com o líder, ele lhe conta que precisou fazer isso por dinheiro, pelo bando, que estava perdendo muitos homens durante as guerras. Segundo Griffith, esses homens que ele usava como ferramentas para alcançar suas ambições haviam dado suas vidas pelo seu sonho. O Falcão não queria mais que vidas fossem desperdiçadas por dinheiro para o bando e resolveu tomar essa iniciativa.
    Depois de muitas guerras e batalhas, Gatts descobre que deve seguir seu caminho sozinho e resolve sair do bando, o que vai contra os planos de Griffith. Os dois, então, lutam uma última vez, sendo desta vez a vitória de Gatts, que vence o líder com pouco ou nenhum esforço. A partir daí, Griffith começa a se desfazer como pessoa, ao ver seu sonho se despedaçar com a ida de Gatts. Sem um motivo claro, ele invade o castelo de Midland à noite e vai até o quarto da princesa, onde a força a ter uma relação sexual. Os dois são flagrados por uma das empregadas do rei, que o avisa. Louco de raiva, o rei ordena que seus soldados capturem Griffith e o aprisionem na masmorra mais funda do castelo, onde ele seria torturado durante um ano.
    Após isto, outra cena polêmica. Vemos o rei de Midland que, embora amasse sua filha e condenasse Griffith por ter violado seu corpo jovem e puro, tenta estuprá-la durante o sono. Durante o incesto, a princesa acorda e tenta repelir o pai, chutando-o no rosto e causando ferimentos graves. O rei sai do quarto urrando de dor e vergonha enquanto suja de sangue o chão do palácio. Agora a princesa Charlotte só tem a sua criada, Anna, como amiga confiável e sonha em, mais do que tudo, ficar junto de seu amado Griffith.
    A seguir, vemos Gatts, um ano depois, vivendo sozinho e ganhando o pão de cada dia derrotando guerreiros mais fortes, como nos velhos tempos. Agora que já é quase um adulto, Gatts aprimorou suas habilidades e usa uma espada com o dobro de sua altura. Após ouvir alguém falando sobre um Bando do Falcão que está sendo liderado por uma mulher e tendo problemas com o reino, ele resolve voltar para seu antigo bando e descobrir o que está acontecendo. Ao retornar, vê o bando encurralado, tentando rechaçar de forma desesperada as tropas de Midland que tentam sobrepujá-lo. Ao conseguir falar com a Caska, nova líder do bando, descobre que as coisas estão difíceis desde que Gatts se foi e Griffith desapareceu misteriosamente. Nenhum deles entende o motivo de estarem sendo atacados e perseguidos pelo exército de Midland.
    No dia seguinte, Gatts e Caska vão, a sós, para a floresta, onde têm sua primeira relação sexual. Na mesma noite, a princesa Charlotte dá um jeito de se comunicar com o bando, revelando o paradeiro de Griffith. Eles armam, então, um pequeno grupo com os soldados mais habilidosos, incluindo Gatts e Caska, para se infiltrarem no castelo com a ajuda da princesa e sua criada e salvarem o Falcão caído. Eles vão até a masmorra mais funda, onde encontram o ex-líder dos Falcões todo enfaixado, com seus músculos definhados e com seu antigo elmo em forma de cabeça de falcão preso à cabeça. Ele estava jogado no chão como se fosse um trapo velho, quase morto. Quando eles se aproximam dele, descobrem que sua língua fora cortada fora, o que o impedia de falar, bem como seus tendões dos pés e das mãos, o que o impedia de se locomover por conta própria. Em uma cena anterior, em que nos é mostrada de forma explícita a tortura de Griffith, o carrasco aparece reclamando por ele não dar um pio sequer durante o terrível sofrimento, o que mostra que as torturas bizarras não eram nada para Griffith se comparado ao término de seu sonho. A tortura do Falcão era algo mais além do físico. Ele estava se destruindo por dentro, acabado, depois de perder as esperanças de realizar seu maior desejo.
    Gatts e outro soldado têm a infeliz idéia de tirar o capacete de Griffith para ver o seu rosto. Não mostra o que eles viram, mas acho que dá para se ter uma idéia. Logo depois, a porta se fecha e o carrasco se revela atrás dela, segurando a língua de Griffith em seu colar, e dizendo que já chamou os guardas para cuidarem deles. Nesse momento, Gatts nos mostra sua primeira manifestação do espírito berserker, quando atinge um estado de fúria incontrolável e atravessa a porta da masmorra, que era quatro vezes mais grossa do que uma porta comum, e assassina o carrasco de forma hedionda, arrancando sua língua com uma faca e deixando-o cair ainda vivo em um poço sem fundo. Assim que os guardas aparecem, Gatts sobe as escadas para a superfície de forma violenta, matando tudo e todos que aparecem pela frente e deixando um rastro de sangue e armaduras amassadas para trás, o que deixa seus amigos bastante assustados.
    Depois de muitas tentativas mal sucedidas do rei de capturar Griffith, eles finalmente conseguem fugir. Caska passa a ter de cuidar de Griffith, mas tudo parece acabado, agora que o Falcão Branco não é mais capaz de lutar, nem mesmo de segurar uma espada. Sem seu líder, o Bando dos Falcões fica desestabilizado e sem esperanças de voltar a ser o que era antes, principalmente agora que ganharam a inimizade do rei. Teriam que viver fugindo do exército. Caska diz a Gatts que ele deveria deixar o Bando mais uma vez e que, se ele era realmente amigo do Griffith, então deveria partir novamente.
    Enquanto isso, Griffith, deitado em sua carroça, tem um sonho aonde ele se vê criança correndo atrás de um castelo brilhante no céu. Depois ele vê uma versão mais velha de si mesmo, trajando sua velha armadura, falando sobre seu sonho, que era a coisa mais importante do mundo. Então Griffith, reunindo toda a sua força, de algum jeito inexplicável, pega as rédeas da carroça onde estava e sai em disparada pra longe dali. O Bando do Falcão inteiro, sem entender nada, vai atrás dele. Nesse momento, o autor nos mostra, não algo forçado, absurdo ou inverossímil, mas sim a grande moral da história de Berserk: querer é poder. Mesmo no estado precário em que se encontrava, apenas com a força de vontade e o desejo absoluto de realizar o seu sonho, Griffith consegue controle sobre a carroça e tenta partir, sozinho, em direção às suas ambições.
    Ele só para ao chegar a um lago, onde acaba caindo para fora da carroça. Perdendo de vez as esperanças, decide se suicidar espetando seu pescoço em uma raiz aguda, o que também acaba não dando certo. Então ele encontra um objeto debaixo d’água. Quando o pega, descobre ser o Behelit vermelho, o Behelit do Imperador, que ele havia perdido durante as torturas, agora estava em suas mãos, molhado com o sangue derramado pela ferida em seu pescoço. Então ele se lembrou de uma frase dita por Nosferatu há muito tempo: se você estiver realmente destinado a isso, então ele voltará para você.
    Nesse momento, Gatts chega seguido pelo Bando do Falcão inteiro. Gatts toca no ombro de Griffith e então o rosto desfigurado do Behelit começa a se ajeitar e a gritar e depois ele começa a chorar lágrimas de sangue, abrindo um portal para outra dimensão que suga o Bando todo.
    Esse é o momento do eclipse, e é o grande clímax de todo o mangá.

    Como de costume, os reis demônios aparecem e iniciam uma conversa com Griffith em particular cheia de metáforas, aonde ele era apenas uma criança empilhando corpos para construir uma torre com eles que o levaria a um castelo cintilante no céu, que simbolizava seu sonho. O significado dessa metáfora era que Griffith seguia em busca de seu sonho a custa da vida dos outros. Para que ele pudesse ter chegado à nobreza, muitos tiveram que morrer. Foi o que ele fez desde sempre, e é o que ele continuaria fazendo até agora.
    Diante disto, o Falcão Branco acaba por aceitar a oferta, o que compromete a vida de seu bando inteiro. Void, o líder da Mão de Deus, marca todos os Falcões com o estigma (Gatts adquire, assim, seu estigma no pescoço, enquanto Caska possui um no peito), atraindo todos os demônios daquele mundo, que massacram o bando inteiro.
    Há um capítulo nesta parte chamado “o Deus do Abismo” que fora censurado pelo próprio autor por revelar demais do mundo de Berserk. A única coisa que o capítulo mostra é a conversa de Griffith com Deus enquanto ele se transformava em rei demônio depois de ter sacrificado todos os seus amigos. Eu acabei baixando o capítulo sem nem saber que ele era “proibido”. Deus, no universo criado por Kentarou Miura, é retratado como um gigantesco coração podre cercado por um redemoinho de sensações ruins, como o ódio e a maldade. Ao que parece, esse Deus não criou o mundo, mas foi criado pelas pessoas que acreditavam nele e que o alimentavam com estes sentimentos negativos. Enquanto os humanos existirem, ele não deixará de existir.


    De volta ao eclipse (que tem esse nome por ser um mundo onde o único sol está tapado por uma lua negra), Gatts nos mostra finalmente sua segunda manifestação do espírito berserker ao lutar ferozmente contra diversos demônios ao mesmo tempo usando apenas uma faca quebrada. Então Griffith termina sua transformação em rei demônio, possuindo agora o nome de Femto, e desce dos céus e estupra Caska na frente de Gatts, que tenta impedi-lo, mas é detido por um demônio que morde seu braço esquerdo. Em uma tentativa desesperada de se libertar, Gatts arranca seu braço com a faca quebrada, demonstrando o estado máximo de berserker que é possível ser atingido, aonde a raiva é tamanha que anula a dor.



    Mesmo livre, Gatts é impedido pelos outros demônios, que o fazem assistir ao estupro da mulher que amava pelo seu melhor amigo. Um dos demônios que o agarrava espeta seu olho direito com sua garra, o que deixa Gatts cego deste olho. O sofrimento é tanto que ele finalmente desmaia, assim como Caska.
    Então quando tudo parecia estar perdido, Skull Knight aparece, extermina um grande número dos demônios (exceto os reis demônios, que, embora seu esforço, ainda é incapaz de tocá-los) e salva Gatts e Caska. Segundo os próprios membros da Mão de Deus, aquilo foi um acontecimento imprevisível, que quebrava as regras impostas pelo próprio destino.
    Gatts acorda em uma caverna próxima à casa de Rickert, único membro do Bando do Falcão que conseguira escapar do eclipse, sem se lembrar de muita coisa. Caska havia acordado três dias antes dele e Rickert explica que ela estava estranha desde então. A ex-interina do Bando do Falcão havia sido traumatizada depois do que aconteceu no eclipse. Ela tinha perdido toda a sua memória, sanidade e razão, tornando-se outra pessoa completamente diferente incapaz de reconhecer os outros, algo um pouco mais do que um animal que age puramente por instinto, sem saber nem ao menos falar.
    Aos poucos, Gatts vai se lembrando do que aconteceu e, então, foge enlouquecido pela raiva. Skull Knight aparece novamente e lhe explica que agora ele vivia entre os dois mundos (referia-se ao mundo dos vivos e ao mundo dos mortos) já que o estigma era capaz de atrair seres do outro mundo. O espadachim seria forçado a viver em uma eterna batalha.
    Ao voltar, vê Caska entrando em trabalho de parto. Quando o bebê nasce, sai um feto deformado (que é o mesmo feto que persegue Gatts na primeira fase do mangá) que ela cuida como se fosse uma criança normal, mas Gatts separa os dois quando Skull Knight diz que o bebê é um fruto da semente demoníaca de Griffith. Como Caska teve relações sexuais com os dois, não se sabe ao certo de quem é o filho, mas pelo argumento de Skull Knight acredita-se que seja o filho de Gatts que foi infectado pela semente de Femto, transformando-o em um meio demônio.
    Percebendo o estado mental grave de Caska, Gatts resolve deixá-la aos cuidados de Rickert e de sua nova família, Godo, um velho ferreiro, e Erika, sua filha. Gatts então pega algumas armas emprestadas de Godo (incluindo o braço mecânico e a Dragon Slayer, a espada gigante que carrega nas costas), veste uma armadura e capa negras e parte, prometendo a si mesmo de que exterminaria todos os demônios do mundo apenas por satisfação própria e que, no final, acabaria com a vida do traidor Griffith/Femto.
    Termina aí o flashback gigante que é o segundo arco do mangá. Tudo o que tinha para ser explicado fora esclarecido. Agora é que a verdadeira saga de Berserk se inicia, continuando do final do primeiro arco, com Gatts como o Espadachim Negro caçador de demônios que tantos gostavam.
    Depois do que aconteceu durante o eclipse, Griffith passou a ser o personagem mais odiado de Berserk. Não apenas por ter sacrificado seus próprios amigos, mas também por ter demonstrado extrema frieza ao estuprar Caska na frente de Gatts. Outros afirmam que a atitude de Griffith foi justificável, pois a única coisa que ele fez foi o que tinha feito desde sempre, ou seja, sacrificou seus soldados pelo Bando e para que seu sonho continuasse vivo. Também se poderia justificar o fato de Griffith ter estuprado Caska, já que isso gerou o bebê demônio que será de extrema importância para Femto no futuro. Ou ainda que ele havia perdido toda e qualquer esperança de realizar seu sonho, especialmente pelo estado precário em que se encontrava, até que aconteceu um "milagre" que lhe deu uma chance única de conseguir aquilo que mais queria. O fato é que esses acontecimentos fizeram com que Griffith caísse definitivamente na categoria de vilão da história, mesmo que a opinião dos fãs seja dividida quanto a isso. Outros argumentos que podem ser usados é que não dá para saber do que uma pessoa é capaz depois de ficar um ano inteiro sendo torturada durante todos os dias em uma masmorra, sem falar que isso era irrelevante para Griffith se comparado à vontade de realizar seu sonho. Então, priorizando o sonho mais do que tudo, ele apenas continuou em frente e fez o que sempre fizera durante todo o tempo: sacrificou as vidas de seu bando para realizá-lo. E só isso já faz com que muitos não o julguem culpado pelo que fez. Herói ou vilão, Griffith é com certeza um personagem polêmico e que ganhará um valor muito maior no quarto arco do mangá, quando sua vilania for posta em cheque.

    Continua...